Rural

Estudo revela alta diversidade de butiás no Sul

Pesquisa liderada pela UFRGS mapeia o impacto socioeconômico e o avanço da Mata Atlântica sobre os butiazais

Fruta típica da região sul do Brasil está ameaçada por vários fatores
Fruta típica da região sul do Brasil está ameaçada por vários fatores Foto : Arquivo de Pesquisa / Divulgação / CP

Uma pesquisa sobre o butiá, fruta típica do Sul do país, no litoral do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina revelou uma diversidade genética dos frutos e de sementes das espécies B. Odorata e B. Catarinensis. O estudo, conduzido pelo professor Enéas Konzen, do Centro de Estudos Costeiros, Limnológicos e Marinhos (Ceclimar/UFRGS), indica que essa variabilidade é o principal trunfo da planta para resistir a transformações ambientais. No entanto, o levantamento faz um alerta sobre a regeneração natural das palmeiras, que está comprometida.

O grupo de pesquisadores coletou duas espécies de butiás e entrevistou comerciantes do Litoral Norte do Estado. Eles chegaram à conclusão de que as áreas de butiazais estão com severas limitações na capacidade de gerar novas plantas. Mais da metade dos comerciantes ouvidos afirmou que percebe a espécie ameaçada e que há muito menos palmeiras de butiá na paisagem hoje em dia, se comparado a décadas anteriores.

Entre os motivos para a diminuição das áreas de butiazais no RS estão fatores antropológicos, como o manejo inadequado de animais no campo, a expansão de lavouras de monocultura e a urbanização. As mudanças climáticas também fazem parte do problema: o constante aquecimento do planeta leva o bioma da mata atlântica a avançar para o sul do país, ocupando áreas de butiazais, o que faz com que os butiás não consigam competir de maneira justa com outras espécies de plantas.

Segundo a pesquisa, a invasão biológica é outro fator para a degradação das áreas de butiazais, com espécies não nativas cultivadas pelo homem “sufocando” as plantas de butiá. O estudo Dinâmica da paisagem dos butiazais no Litoral Norte do Rio Grande do Sul, publicado por Karine Machado Costa, revela que entre os anos de 1974 e 2011 88,1% da área total de butiazais foi convertida para outros usos do solo.

Atualmente, a pesquisa de Enéas Konzen busca entender como essas ameaças podem afetar a diversidade genética do butiá.

“Onde o gado não ocupa, tem regeneração, tem novas plantas crescendo; onde o gado passa sem intervenções, o butiá não consegue crescer. É uma outra feição que a gente ainda vai explorar na pesquisa.”

A pesquisa constatou uma variedade de características muito maiores do que havia sido descrito em estudos anteriores. Os dados da pesquisa apontam, por meio do sequenciamento de DNA, uma alta variabilidade entre diferentes populações de butiá.

“Diversidade genética é matéria-prima para evolução. A gente vê que as populações têm diversidade ainda, mas que essa diversidade possivelmente já foi reduzida, que o tamanho delas também está reduzindo. E, devido a elas serem geneticamente diferentes, é necessário fazer a conservação de todas essas áreas pelas particularidades que se constatam nelas”, explica Konzen.

Boa parte dos entrevistados têm o comércio de butiás com parte importante da renda. Em 2023, o artesanato com palha de butiá foi declarado patrimônio cultural imaterial do Rio Grande do Sul.

Além dos frutos in natura, os produtos derivados do butiá, como licor, cachaça, sorvete e “sacolé” complementam a renda e compõem a identidade desses comerciantes. Muitos dos entrevistados relatam sentir falta de apoio aos comércios, nos moldes de uma cooperativa, para reunir seus trabalhos e agregar valor aos produtos. “A nossa pesquisa tem o compromisso de buscar estratégias de manejo adequadas para a preservação dos butiazeiros e promover o equilíbrio entre as necessidades humanas e a preservação ambiental”, finaliza Konzen.

Veja Também