Rural

Gripe aviária no RS: como o vírus evoluiu, cruzou espécies e virou ameaça global

Desde os primeiros registros na Europa, ainda no século 19, até os surtos atuais, a gripe aviária se espalhou entre espécies e continentes

Escavadeira trabalha em granja comercial, local do primeiro surto de gripe aviária do país, em Montenegro (RS)
Escavadeira trabalha em granja comercial, local do primeiro surto de gripe aviária do país, em Montenegro (RS) Foto : Silvio Avila / AFP / CP

A gripe aviária não é uma ameaça recente. A doença foi descrita pela primeira vez em 1878, na Itália, como “Praga Aviária”, e somente em 1955 foi identificado o vírus da influenza A aviária como seu causador. Desde então, o mundo tem acompanhado sua evolução com preocupação, à medida que novos subtipos surgem, cruzam fronteiras e infectam tanto aves quanto humanos.

Segundo informações da Embrapa Suínos e Aves, o vírus da gripe aviária apresenta alta variabilidade genética, especialmente por ser um vírus de RNA, que não corrige erros durante a replicação. Isso favorece mutações e recombinações frequentes, que dificultam o controle, inclusive com vacinas.

Quando a gripe aviária mudou de patamar

O primeiro caso de gripe aviária com impacto em humanos foi registrado em 1997, em Hong Kong, com o subtipo H5N1, que causou doenças graves e mortes. A partir dali, surgiram outras variantes como H7N9, H5N6, H9N2 e mais recentemente H3N8 e H10N3 — todas com potencial zoonótico.

De acordo com a Organização Mundial da Saúde Animal (WOAH), entre 2005 e 2021, surtos de gripe aviária de alta patogenicidade (HPAI) provocaram a morte ou abate de mais de 316 milhões de aves no mundo. Os anos de maior impacto foram 2016, 2020 e 2021, com mais de 50 países afetados em cada período.

Além das perdas econômicas, a preocupação maior está na possibilidade de o vírus evoluir e adquirir capacidade de transmissão sustentada entre humanos, o que poderia resultar em uma nova pandemia.

O papel das aves aquáticas e do suíno na transmissão

As aves aquáticas silvestres, como patos, marrecos e gansos, são consideradas os principais reservatórios naturais do vírus, muitas vezes sem manifestar sintomas. Elas excretam o vírus pelas fezes e contaminam água, alimentos e ambientes.

Quando essas aves têm contato com galinhas e perus, o vírus pode se adaptar e se tornar altamente patogênico. De acordo com dados da Embrapa, o convívio entre espécies diferentes em feiras, criatórios mistos e áreas urbanas densas, como ocorre em muitos países da Ásia, favorece a recombinação genética entre vírus.

O suíno também aparece como hospedeiro intermediário em sistemas de produção mistos. Caso um animal esteja infectado simultaneamente por vírus aviários e suínos, pode haver mistura genética e formação de um novo subtipo com capacidade de infectar humanos, como ocorreu com o H1N1 em 2009.

Veja Também

Onde o risco é maior?

Regiões com alta densidade de aves comerciais e contato frequente com aves silvestres ou migratórias apresentam maior risco de surtos. Feiras de aves vivas, lagos abertos e ausência de controle sanitário tornam-se pontos de atenção.

O vírus, embora seja facilmente inativado com desinfetantes, pode sobreviver por longos períodos em ambientes frios e úmidos, especialmente em fezes ou em carcaças congeladas.

Segundo a Embrapa, a prevenção passa por medidas como:

  • Monitoramento constante de aves comerciais e migratórias
  • Quarentena de aves importadas
  • Controle rigoroso de trânsito e comércio de aves vivas
  • Uso de telas e barreiras físicas em aviários
  • Treinamento de veterinários para ações rápidas em surtos

Casos humanos: quais subtipos causam mais preocupação?

A gripe aviária é principalmente uma doença animal. Mas alguns subtipos do vírus já conseguiram infectar humanos. O subtipo H5N1, por exemplo, já registrou cerca de 850 casos em humanos, com aproximadamente 425 mortes. O H7N9 foi responsável por cerca de 1.500 infecções, resultando em cerca de 600 óbitos. O H5N6 teve cerca de 80 casos notificados, com pelo menos 30 mortes, enquanto o H9N2, menos agressivo, causou cerca de 75 infecções com duas mortes confirmadas.

Além desses, subtipos como H3N8, H7N4 e H10N3 também foram detectados em humanos, mas de forma mais esporádica. A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera o H5N1 e o H7N9 os subtipos de maior potencial pandêmico, pois continuam circulando amplamente entre aves e encontram na população humana nenhuma imunidade protetora.

O que o Brasil tem feito?

Até 2025, o Brasil não registrava surtos de gripe aviária em aves comerciais. Após a confirmação de foco em uma granja no Rio Grande do Sul, o país mantém a política de erradicação imediata e vigilância ativa, sem adoção de vacinação para aves — como já explicamos em matéria anterior.

A prevenção se baseia na rastreabilidade das aves, biossegurança nas granjas, e atuação dos Serviços Oficiais de Defesa Sanitária Animal, coordenados pelo Ministério da Agricultura (Mapa) e secretarias estaduais.

👉🏼Você pode se interessar por isso….

Aves e ovos são enterrados em granja após caso de gripe aviária no RS; veja fotos

Ovos de granja com caso de gripe aviária estão rastreados, diz Ministério da Agricultura e Pecuária

Gripe Aviária: Infecção por H5N1 é rara em humanos e consumo de aves é seguro

Gripe aviária: o que você precisa saber sobre a doença e como se proteger