“Começamos pequenos, literalmente na garagem da casa da vó da Nati, com quatro clientes e uma ambição que já era grande: mostrar que lixo não precisava ser simplesmente descartado, mas poderia voltar para ciclos produtivos e gerar valor ambiental, social e econômico”, conta Natália Pietzsch, co-fundadora da startup Arco ao lado de Amália Koefender Leite. Juntas, as duas engenheiras ambientais deram forma à empresa Ações para Reciclagem e Compostagem (Arco).
Sediada em Porto Alegre, a empresa de gestão circular de resíduos surgiu em 2018 para preencher uma lacuna que era observada por Natália em sua startup anterior, a Re-ciclo – também dedicada à coleta e compostagem de resíduos orgânicos. Em dois anos de atuação na Re-ciclo, que era voltada para pessoas físicas, Natália percebeu que as organizações passavam pelo mesmo dilema: “queriam fazer uma gestão melhor dos seus resíduos, mas tinham dificuldade de encontrar parceiros que oferecessem soluções completas, licenciadas e financeiramente viáveis”.
O problema observado por Natália ilustra o cenário de geração de resíduos no Brasil. Em 2024, o País produziu 81,6 milhões de toneladas de resíduos sólidos, de acordo com a Associação Brasileira de Resíduos e Meio Ambiente (Abrema). Em um ano, a quantidade representa 384 kg de resíduos gerados por pessoa, cerca de 1,2 kg por dia.
Na procura de reduzir e evitar o desvio de resíduos para aterros, as engenheiras viram na startup uma oportunidade de ressignificar, por meio da compostagem e da reciclagem, “a forma como pessoas e empresas enxergam o ‘lixo’”, como menciona a co-fundadora da empresa.
“A Arco nasceu de uma inquietação muito prática: saber que aquilo que chamamos de lixo pode, na verdade, ser um recurso, matéria-prima para novos processos, mas que grande parte desses materiais ainda é simplesmente descartada e enviada para aterros sanitários”, compartilha Natália.
Na época colegas na pós-graduação na Escola de Engenharia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs), as engenheiras ambientais Natália e Amália idealizaram a Arco. As gaúchas de Porto Alegre e Lajeado, respectivamente, desejam tornar a gestão de resíduos viável para pequenos e médios estabelecimentos.
“No início, nosso foco estava muito ligado à operação. Hoje, entendemos a gestão de resíduos de maneira muito mais ampla”, diz ela. “Trabalhamos fortemente com dados e rastreabilidade, construímos uma grande rede de parceiros para encontrar a melhor destinação para diferentes tipos de materiais e incorporamos de forma cada vez mais forte o impacto social, trabalhando diretamente com cooperativas de triagem e pessoas que vieram da atividade de catação.”
Dentro da Arco, as atividades envolvem diferentes frentes, como lista Natália: treinamento da equipe, estruturação das lixeiras até coleta, triagem, compostagem, reciclagem, rastreabilidade e geração de indicadores de impacto. “Atendemos empreendimentos urbanos muito diferentes: de uma cafeteria a um hotel ou uma indústria.”
A startup também atua com logística reversa, como no programa de reciclagem de cápsulas da Três Corações, com projetos de economia circular, como o programa de reciclagem de vidro em parceria com Verallia e ABRABE “Vem de Long” e com projetos de educação ambiental.
Protagonismo feminino na gestão de resíduos
Dentro da equipe formada por 20 pessoas na Arco, metade são mulheres, e a gestão é inteiramente feminina. A composição da equipe contrasta com a realidade observada pelas engenheiras na área ambiental: “atuamos em um setor que, apesar de falar muito sobre meio ambiente e impacto social, é bastante operacional e historicamente masculino”, pondera Natália.
O Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Unep) afirma que há uma divisão de gênero perceptível no setor, que se baseia em convenções estereotipadas na sociedade. “Papeis tradicionais de gênero ditam as tarefas: homens assumiriam papeis maiores, como gestão de reciclagem, enquantos mulheres frequentemente lidam com tarefas consideradas de menor responsabilidade, relacionadas à coleta, limpeza e separação de resíduos”, menciona o Unep no artigo “Gênero e gestão de resíduos”.
Em 2014, por exemplo, o Movimento Nacional dos Catadores de Materiais Recicláveis (MNCR) estimou que, dos 800 mil trabalhadores em atividade no Brasil, 70% seriam mulheres, o que representa mais de meio milhão de mulheres envolvidas com reciclagem. Apesar disso, cargos de liderança ainda permanecem direcionados a homens, como aponta o programa da Organização das Nações Unidas (ONU).
“Mulheres são frequentemente excluídas de posições hierárquicas e de tomada de decisão. Quando a gestão de resíduos é formalizada, mulheres costumam ser marginalizadas e substituídas por homens, contrastando com seus papeis em contextos informais”, analisa o Unep.
A dificuldade de acesso ao capital para investir é parte do problema, aponta Natália que, junto de Amália, submeteu a ideia da startup ao Programa Realiza, da aceleradora de negócios Quintessa. De acordo com o relatório “In Focus: Gender and Impact Investing in 2024” do Global Impact Investing Network, apenas 20% dos investidores adotam uma perspectiva de gênero e destinam sistematicamente 30% ou mais de seus ativos de impacto a negócios majoritariamente pertencentes ou liderados por mulheres.
No Brasil, o percentual é ainda menor. O levantamento observou que apenas 3% das 20% organizações de investimento eram sediadas na América do Sul e no Caribe.
Quando existe, porém, o investimento em empresas e projetos pertencentes ou liderados por mulheres dá retorno positivo e de grande impacto. Entre os investidores que apresentavam uma perspectiva de gênero dentro da organização, 90% disseram ter atingido ou superado suas expectativas financeiras, e 97% afirmaram ter atingido suas metas de impacto.
Onde está o sócio?
Na realidade imediata das sócias da Arco, o panorama global não se aplica. “Na nossa experiência com as cooperativas de Porto Alegre, é muito mais comum encontrar mulheres em posições de liderança do que homens”, observa Natália. “Na Arco acontece algo parecido. Quando abrimos vagas ou estágios, recebemos muitos currículos de mulheres, e mais de 70% do nosso público no Instagram é feminino.”
Apesar disso, o preconceito de gênero ainda existe. Em uma rotina de trabalho que “envolve caminhões, logística, galpões, máquinas, equipamentos, fornecedores, negociação e gestão de equipes operacionais”, como descreve Natália, ele é manifestado em ações cotidianas. “Uma ligação pedindo para falar com ‘O sócio”, ou comentários, às vezes sem nenhuma má intenção, do tipo: ‘Nunca vi duas mulheres tocando uma empresa de reciclagem’”, cita a co-fundadora da Arco.
“Hoje a gente até acha graça, mas essas situações mostram como ainda existe uma imagem bastante masculina associada a determinados setores. Em alguns momentos parece que precisamos primeiro provar que entendemos do assunto para depois a conversa começar”, diz Natália.
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A necessidade de se provar vem também por meio da “cobrança de conseguir dar conta de muitas dimensões da vida ao mesmo tempo”, diz Amália. Sócia da Arco, ela também dedica parte de sua rotina à maternidade.
“Ao longo do tempo, aprendemos também a ocupar esses ambientes com bastante naturalidade”, relata Amália. “A melhor maneira que encontramos de romper alguns desses estereótipos foi continuar fazendo e mostrando resultado.”
Elas se preocupam com o meio ambiente
A preocupação das mulheres com a sustentabilidade, maior que a dos homens, como evidenciada em pesquisa da Descarbonize Soluções, tem raízes nos papeis de gênero construídos ao longo dos séculos. Em entrevista à Revista Humboldt, do Goethe-Institut na América do Sul, a alemã co-fundadora da rede global GenderCC – Women for Climate Justice Gotelind Alber sugere que as ações adotadas no cotidiano por elas estão relacionadas aos papeis que a sociedade espera que as mulheres cumpram.
“Em nossa sociedade, as mulheres são definidas com frequência por seus papéis sociais, criadas para cuidar de outras pessoas e consequentemente também da natureza e do meio ambiente”, disse a consultora e especialista em energias sustentáveis e políticas ambientais com foco especial em questões de gênero. “As normas de gênero têm definitivamente influência na forma como nos comportamos em relação ao meio ambiente”, defende Gotelind.
As sócias da Arco concordam, e ressaltam que a sustentabilidade não deve ser uma responsabilidade exclusivamente feminina. “A crise climática, o consumo e a geração de resíduos são problemas coletivos. Homens, mulheres, empresas e governos precisam estar igualmente envolvidos”, acredita Natália.
Alinhada à ela, Amália ressalta que a sustentabilidade deve fazer parte do cotidiano. “Existe uma tendência de imaginar que a sustentabilidade precisa começar por grandes projetos, grandes investimentos ou soluções perfeitas. Muitas vezes ela começa olhando para decisões bastante básicas: Que resíduos a minha empresa gera? Para onde eles vão? Eu realmente preciso consumir tudo aquilo que consumo? Existem alternativas melhores? As pessoas da minha equipe sabem separar corretamente os resíduos?”
*Sob supervisão de Lisiane Mossmann
