Enchente

Clubes esportivos de Porto Alegre ainda lidam com as sequelas da enchente de 2024

Readequações acontecem tanto no âmbito financeiro como no físico, com projetos para evitar novas tragédias

Na Ilha do Pavão, do GNU, clube estuda elevar mais o espaço dedicado aos barcos
Na Ilha do Pavão, do GNU, clube estuda elevar mais o espaço dedicado aos barcos Foto : Pedro Piegas

As águas baixaram, mas as marcas ficaram. No Rio Grande do Sul, as enchentes de maio de 2024, que completam um ano agora, deixaram um rastro de destruição que foi além das ruas e das casas. No coração dos torcedores, nos estádios e nos centros de treinamento, nasceram cicatrizes profundas — como aquelas que, embora curadas, jamais deixam de contar sua história. São marcas indeléveis de algo que parece superado, mas ficará para sempre no imaginário.

Para Grêmio e Inter, os maiores clubes do estado, o impacto foi avassalador. O CT Luiz Carvalho e a Arena do Grêmio foram tomados pela água. No Inter, o Beira-Rio também precisou ser recuperado e o CT Parque Gigante foi reerguido quase do zero. Equipamentos inutilizados, campos destruídos, calendário interrompido. Outros clubes esportivos como o Grêmio Náutico União e a Sogipa também foram atingidos. Mas a ferida, ainda que aberta, começou a ser tratada com o esforço conjunto de atletas, dirigentes, funcionários e torcedores, que se uniram para resgatar não apenas a estrutura, mas também o espírito esportivo que move gerações.

Esta série de reportagens percorre os estragos que a enchente deixou e acompanha os passos de recuperação, revelando os desafios e os pequenos milagres que se acumulam dia após dia. E, sobretudo, mostra como o futuro começa a ser redesenhado sobre o terreno das cicatrizes — não como sinal de fraqueza, mas como símbolo da força de quem resiste, aprende e segue em frente.

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Normalmente, em ano de Olimpíada todas as atenções dos clubes esportivos estão voltadas para o evento esportivo mais importante do mundo. Em 2024, com os Jogos de Paris, não deveria ser diferente. Porém, em maio, quando Porto Alegre foi invadida pelas águas tudo isso pareceu pequeno perto de tudo que se sucedeu a partir daí. Um ano depois que alguns clubes da cidade viraram abrigo para aqueles que perderam tudo, o que foi feito de lá para cá para que eles possam se preparar caso as águas surpreendam novamente?

A sede da Ilha do Pavão do Grêmio Náutico União (GNU) sempre foi obrigada a lidar com as chuvas. Porém, o espaço, majoritariamente voltado para o remo, não tinha como estar preparado para as águas que passaram dos cinco metros e meio e, depois, com o lodo que castigou praticamente todo o local. Muitos barcos foram quebrados, diversas reformas tiveram que ser feitas e, até hoje, o clube não está 100% recuperado. Só de maio até novembro do ano passado, mais de R$ 1 milhão foi investido na reconstrução. "Nós fizemos um planejamento de fazer da metade da ilha inicialmente, onde fica os restaurantes, o remo. Mas já estamos avançando, já estamos fazendo a segunda parte, recuperando passeios, oficina de barcos, os escoteiros", conta Ricardo Alves, presidente do GNU.

Sede Ilha do Pavão, do Grêmio Náutico União, chegou a ter água a cinco metros de altura | Foto: Pedro Piegas

Além dos barcos, um dos maiores prejuízos da sede foi o gerador, completamente inundado. Por este motivo, a principal prevenção feita até aqui pelo clube foi a elevação do equipamento em uma altura que ultrapassa o nível atingido pela água há um ano atrás. Mesmo após o retorno para a sede, o local ficou sem energia elétrica por quase 100 dias, o que dificultava ainda mais o início das obras de reconstrução. De acordo com o subgerente da Ilha, Ralf Gutschwager, outra alternativa pensada pela diretoria do clube é uma possível elevação dos barcos para que não haja muitos prejuízos caso a água volte a invadir o local. "A ideia é ampliar até o teto e daí fazer a mudança deles, colocar eles em andares mais acima para evitar. É um projeto que está sendo avaliado pela diretoria, o investimento é bem alto, só que o patrimônio também é muito alto", afirma Ralf.

Enquanto isso, as outras sedes do clube serviram como um local de distribuição de mantimentos para os desabrigados. Uma força-tarefa foi criada para receber todo o tipo de ajuda para quem havia perdido tudo enquanto o GNU paralisou suas atividades por mais ou menos um mês.

Mutirões para viabilizar a recuperação

Se um clube multiesportivo e mais estruturado financeiramente já sente as marcas deixadas pelas enchentes até um ano depois, o Clube de Regatas Guaíba-Porto Alegre (GPA) mal tinha se reestruturado quando foi atingido novamente pelo ciclone do final de março em Porto Alegre. Localizado também às margens do Guaíba, o GPA existe desde 1888, voltado para o remo, e já sobreviveu a diversas chuvas fortes ao longo de sua história, mas nenhuma comparada a de maio. Assim como na Ilha, o maior prejuízo sentido pelo clube foi o da perda dos barcos. Além disso, o telhado, as portas e a academia também foram danificados pelas águas.

Atualmente, com um projeto intitulado "Remo para Todos", o GPA conta com uma pequena quantidade de sócios, que afunilou ainda mais depois das cheias. De acordo com o secretário do clube, Paulo Henrique Quadros, foram necessários mutirões com a comunidade para ser possível utilizar o espaço novamente ainda no ano passado. "Todo mundo se disponibilizou para começar a tirar barro, para limpar, e até hoje é assim. A gente começa a fazer uns mutirões, com churrasco, para pintar, e aí o pessoal se junta, tudo de bom grado, todo mundo que se identifica com o clube e com o remo", conta Paulo.

Na sede do Clube de Regatas Guaíba Porto Alegre, telhados, portas e a academia foram atingidos | Foto: Mauro Schaefer

Diferente da sede da Ilha, o GPA não tem muito para onde fugir quando pensa em preparação para uma possível nova cheia. "A gente lida com isso há muito tempo", diz Paulo Henrique Quadros, secretário do clube. A maior preocupação caso a água volte como em 2024 são os barcos. Alguns foram restaurados, mas outros ainda seguem com avarias. Por baixo, os gastos chegaram em torno de R$ 15 mil, tudo arrecadado com a ajuda dos sócios do clube, que após a enchente caiu de 170 para 85. “O custo todo nós conseguimos, graças aos sócios, porque o clube em si não tinha caixa. Faz um tempo, na verdade, que não conseguimos ter um caixa saudável, então muito do que conseguimos aqui vem de quem se identifica, seja com o nosso trabalho no projeto social, seja com o nosso remo master”, destaca Paulo.

Na Sogipa, todas as atividades esportivas foram paralisadas nos primeiros dias da enchente. Isso porque o clube cedeu quatro dos seus ginásios, além de outras instalações, para abrigar cerca de 480 atingidos pelas águas. Além disso, como fica na zona norte de Porto Alegre, muito próximo das áreas alagadas, acabou servindo como ponto de apoio para os órgãos de segurança e voluntários que atuaram em outros abrigos e nos salvamentos. O gramado da pista de atletismo, por sua vez, serviu como ponto de pouso para helicópteros utilizados na busca por pessoas ilhadas ou doentes.

Como treinar em maio ao cenário de destruição?

“Foi difícil. Eu mesmo conhecia muita gente que tinha sido atingida e teve a casa alagada. Não tinha como ficar alheio”, afirmou Almir Júnior, vice-campeão mundial do salto triplo. Ele voltava ao Estado após um período na Europa quando teve o trajeto interrompido. O aeroporto Salgado Filho já estava fechado. Ele conseguiu um carro, cumpriu o trajeto final de carro e, quando chegou a Porto Alegre, juntou um grupo de amigos e passou a atuar no salvamento dos atingidos.

Almir e outros atletas de alto rendimento do clube não foram impedidos de treinar. O clube ofereceu as condições possíveis para que isso ocorresse, mas a maioria atuou no abrigo da própria Sogipa. As Escolas Esportivas, que normalmente atendem mais de 5 mil pessoas de todas as idades, também pararam por alguns dias. “A Sogipa atendeu a comunidade durante as enchentes de 1941 e, agora, outra vez. Fizemos o que tinha de ser feito na hora, juntando e organizando centenas de pessoas para que pudessem amparar outras centenas que não tinham para onde ir. Cumprimos a nossa missão”, relembra o presidente da Sogipa, Adílio Schneider Finger.

Piedro Tuchtenhagen (foto) e Evaldo Becker abriram mão do Pré-Olímpico para ajudar os desabrigados em Porto Alegre | Foto: William Lucas/COB/CP

Enquanto o Estado ficou parado por, no mínimo, mais de trinta dias, o resto do Brasil não parou com as competições esportivas. Isso fez com que diversos atletas gaúchos fossem minimamente prejudicados de alguma maneira no cenário nacional e internacional, ainda mais quando se trata de um no olímpico. Talvez o caso que ganhou mais repercussão durante o período das cheias foi o da dupla de remadores Piedro Tuchtenhagen e Evaldo Becker. Os atletas optaram por deixar as finais do Pré-Olímpico decisivo na Suíça para voltar as atenções nas ajudas humanitárias da capital gaúcha. Esta era a última chance dos dois de conseguir competir em Paris-2024.

Apesar de perder uma das maiores chances que um atleta pode ter na carreira esportiva, Piedro acredita que o remo gaúcho vem conseguindo se reestruturar neste um ano. “O recomeço é um processo lento mas através de muito apoio de amigos e colaboradores e até iniciativas como por exemplo as vaquinhas, foram e vem sendo de extrema importância para a reconstrução do remo gaúcho. É lindo ver que mesmo assim podemos encontrar um motivo para sorrir e continuar lutando por nossos objetivos”, afirma Piedro.

Campeões da solidariedade

Tricampeã brasileira de remo, a também remadora Luana Fagundes sentiu de perto os impactos da enchente. Atleta do GPA desde que se entende por gente, Luana viu o local que a formou como atleta ser completamente devastado pela chuva. Ela também voltou sua atenção para a ajuda humanitária ao longo de todo o mês de maio de 2024, apesar de ter em vista um Campeonato Brasileiro de Remo em novembro. Mais de um mês sem treinos, e Luana não poderia imaginar que conquistaria o tricampeonato brasileiro de remo no mesmo ano, ao lado de sua dupla Isadora Greve. “Os atletas do sul ficaram muito prejudicados, diferente dos nacionais, porque lá não parou. Então quando ganhamos eu fiz questão de agradecer a todos que possibilitaram com que eu estivesse lá, todos que ajudaram”, lembra Luana.

Ao contrário de outros atletas, Almir Júnior foi “energizado” por sua atuação nos salvamentos. Apesar de ter perdido alguns dias de treinos, ele conseguiu viajar até Cuiabá e conquistou a medalha de ouro no Campeonato Ibero-Americano de Atletismo, saltando 17m31, marca que lhe garantiu o índice para os Jogos Olímpicos de Paris, que ocorreram alguns meses depois

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