Enchente

Rondas em botes e equipamentos boiando no gramado: como as cheias de 2024 atingiram o Inter

Um ano após a enchente de 2024, o CP traz detalhes dos bastidores das semanas de maio no clube

Um ano da enchente no RS, Rodrigo Riegel, zelador do Beira-Rio
Um ano da enchente no RS, Rodrigo Riegel, zelador do Beira-Rio Foto : Ricardo Giusti

As águas baixaram, mas as marcas ficaram. No Rio Grande do Sul, as enchentes de maio de 2024, que completam um ano agora, deixaram um rastro de destruição que foi além das ruas e das casas. No coração dos torcedores, nos estádios e nos centros de treinamento, nasceram cicatrizes profundas — como aquelas que, embora curadas, jamais deixam de contar sua história. São marcas indeléveis de algo que parece superado, mas ficará para sempre no imaginário.

Para Grêmio e Inter, os maiores clubes do estado, o impacto foi avassalador. O CT Luiz Carvalho, do Inter, e a Arena do Grêmio foram tomados pela água. No Inter, o Beira-Rio também precisou ser recuperado e o CT Parque Gigante foi reerguido quase do zero. Equipamentos inutilizados, campos destruídos, calendário interrompido. Outros clubes esportivos como o Grêmio Náutico União e a Sogipa também foram atingidos. Mas a ferida, ainda que aberta, começou a ser tratada com o esforço conjunto de atletas, dirigentes, funcionários e torcedores, que se uniram para resgatar não apenas a estrutura, mas também o espírito esportivo que move gerações.

Esta série de reportagens percorre os estragos que a enchente deixou e acompanha os passos de recuperação, revelando os desafios e os pequenos milagres que se acumulam dia após dia. E, sobretudo, mostra como o futuro começa a ser redesenhado sobre o terreno das cicatrizes — não como sinal de fraqueza, mas como símbolo da força de quem resiste, aprende e segue em frente.

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As águas chegaram ao CT Parque Gigante ainda na sexta-feira, dia 3 de maio. É bem verdade que o Guaíba já dava sinais de que poderia avançar sobre os campos devido à chuva que insistia em cair há dias sobre todo o Rio Grande do Sul, mas mesmo assim, foi um choque quando elas deixaram as margens habituais, atingiram a grama e paralisaram o treino comandado pelo então técnico Eduardo Coudet. Nas horas seguintes, torcedores, funcionários e dirigentes do Inter veriam o patrimônio colorado ser severamente castigado, atrapalhando a rotina de todos os que iam ao Beira-Rio ou ao CT Parque Gigante, além de machucar a alma dos colorados.

Na verdade, o Guaíba já avançara sobre o CT outras vezes. Porém, jamais trouxe consequências maiores. Em 2024, foi diferente. As águas seguiram subindo, atingiram dois metros de altura, inundando as áreas administrativas, os vestiários e os equipamentos utilizados pelos jogadores em dias de treinos. O que era ruim ficou muito pior em seguida. Entre domingo e segunda-feira, o sistema de prevenção de enchentes de Porto Alegre, composto por diques e casas de bombas, falhou, deixando a inundação chegar até o Beira-Rio. A água passou de um metro no gramado e mais ainda em outros locais do estádio.

"Quando a gente chegou, foi difícil até de saber por onde começar. Foi bem difícil. As coisas boiavam em tudo que é lugar, inclusive no gramado. Tivemos um prejuízo de R$ 90 milhões", observa o vice-presidente de patrimônio do clube Gabriel Gonçalves Nunes, que continua: "É importante salientar que as enchentes aqui (Beira-Rio) e no CT ocorreram por motivos diferentes. Lá, a água subiu e não tinha muito o que fazer. Aqui, a gente achava que não ia chegar, mas a água subiu dos bueiros porque o sistema falhou."

Estádio ficou tomado pelas águas durante uma semana

Nos dias seguintes, não houve jogos nem treinos em nenhum dos dois lugares. Devido à grande quantidade de água, as equipes de segurança faziam a ronda utilizando botes. Não havia água e energia elétrica e, por alguns dias, pouco se fez a não ser torcer para os estragos não serem tão grandes. "Foi um sentimento de muita tristeza, né? Eu me senti impotente, até pela minha função, que é cuidar do patrimônio do clube. A minha obrigação é deixar o estádio em condições para receber o torcedor, os próprios atletas... Eu vi que eu não tinha o que fazer. Eu só pude observar e tentar, na minha cabeça, montar uma estratégia de como fazer a recuperação disso tudo. 'E depois da água baixar?' Essa era a pergunta que não saía da minha cabeça", lembra Rodrigo Riegel, que era e ainda é o encarregado da manutenção do Beira-Rio.

A água tomou conta do estádio por quase uma semana. Depois, começou o trabalho de recuperação. O desafio inicial era conseguir fazer os sistemas de água e luz voltarem a funcionar, o que demorou algumas semanas. Mesmo assim, as equipes de limpeza iniciaram o trabalho, atacando área por área para retirar água e lodo, munidos de lanternas e geradores de energia. "No início, isso aqui era um silêncio absoluto. Não se ouvia nada, nem carro nas ruas. Depois de uns dias, conseguimos entrar e fizemos uma força-tarefa para limpar tudo e iniciar a recuperação", lembra Riegel, que continua: "Uma hora, a água baixou. Daí, vimos o tamanho do drama. Era um cenário devastador. Lama, sujeira, tudo revirado. A força das águas foi um negócio absurdo. Tinha material pesado que foi aparecer no meio do gramado. Ele veio nas partes internas, flutuando pela água, e foi parar no campo. Nada sobreviveu."

Encarregado da manutenção do Beira-Rio, Rodrigo Riegel lembra do cenário de destruição | Foto: Ricardo Giusti

Riegel não foi pessoalmente atingido, apesar de ter presenciado a dor de colegas e amigos que perderam tudo. Mas a sua rotina também se alterou. As folgas rarearam nas semanas seguintes, até que o Beira-Rio voltasse a funcionar como antes das enchentes. "O vestiário, para nós, é um lugar sagrado, porque é ali que a energia, junto com o estádio, vem e se transforma no futebol. O vestiário estava em uma situação de destruição total. Foi muito triste de ver", afirma o funcionário colorado.

Mas, aos poucos, sala por sala, ambiente por ambiente, em sistema de mutirão, os funcionários foram limpando e recuperando o estádio, principalmente após o restabelecimento da luz e da água. A parte mais demorada foi o gramado, que foi todo perdido. Em um primeiro momento, o clube fez o plantio de uma grama de inverno, que aguentou até dezembro. Só no final do ano, foi feita a troca completa de todo o gramado, substituindo o campo pela primeira vez desde 2014, quando Beira-Rio foi totalmente reformado para a Copa do Mundo.

Recuperação do Centro de Treinamentos partiu do zero

No CT, a tarefa foi ainda maior. Como as águas atingiram mais de dois metros, foi preciso reconstruir o local praticamente do zero. A reforma levou em consideração a possibilidade de as águas voltarem a subir. Agora, as paredes foram reforçadas e as janelas, reposicionadas. Estão mais altas. O clube também estuda a construção de uma espécie de muro, diminuindo a possibilidade de enchente, mas o projeto ainda é embrionário.

Devido à tragédia, o Inter saiu do Rio Grande do Sul. Refugiou-se no interior de São Paulo para treinar e teve que mandar seus jogos em outros estádios. Também ficou um mês com o calendário pausado, acavalando os compromissos no restante do ano. Ainda no final de maio, voltou a jogar, mas na Arena Barueri. Também atuou em Caxias do Sul e Criciúma. A volta ao seu estádio ocorreu em 7 de julho com uma derrota por 2 a 1 para o Vasco da Gama pelo Brasileirão. "Foram 70 dias muito difíceis, cheio de incertezas. A água tomou conta de tudo e transformou o nosso estádio em uma lagoa. Graças a muito esforço de cerca de 600 profissionais e equipes de manutenção, conseguimos voltar. Os prejuízos ficaram, mas voltamos", declarou o vice-presidente eleito, Victor Grunberg.

Prejuízos chegam à casa dos R$ 90 milhões

O CT demorou mais. Após usarem por alguns meses o CT de Alvorada, normalmente usado pelas categorias de base, os jogadores do grupo principal retornaram às margens do Guaíba no início de setembro, quando o treinador já era Roger Machado. "Ficaram as cicatrizes. Muitos funcionários perderam tudo, o clube também foi afetado. Mas a gente conseguiu, com a força da torcida e dos funcionários, se reerguer. Chegamos a ficar sem água e sem luz durante quase 30 dias aqui no Beira-Rio, o que é algo inédito. Conseguimos nos reerguer", afirma o vice-presidente de patrimônio.

No final do ano, o clube reuniu a imprensa e comunicou que os prejuízos causados pelas enchentes alcançaram cerca de 90 milhões. Nesta quantia, foram consideradas perdas materiais, gastos em decorrência da enchente e também projeções feitas pelo clube de arrecadações em um cenário normal, incluindo até a premiação em competições como a Copa do Brasil e a Sul-Americana. Além disso, computa cerca de R$ 19 milhões usados nas reformas do Beira-Rio e do CT. Devido a isso, mas também aos custos do futebol, o clube apresentou um déficit de R$ 34,4 milhões em 2024.

"Eu penso que a gente conseguiu. Vencemos essa catástrofe. O Beira-Rio voltou a ser o que era, assim como o CT. Hoje, as marcas são imperceptíveis, mas estão aí. Quem chegar hoje a Porto Alegre sem saber o que aconteceu, não vai perceber que o estádio sofreu tanto. Acho que o nosso esforço valeu a pena", finaliza Riegel, o encarregado pela manutenção do estádio colorado.

Gramado foi todo perdido e teve que ser trocado | Foto: MAX PEIXOTO/DIA ESPORTIVO/ESTADÃO CONTEÚDO/CP

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