Enchente

Massagista do Grêmio fez rifa de camisa autografada por Suárez para arcar com prejuízos durante a enchente

Anderson Meurer revela que também foi ajudado por outros atletas do clube

Anderson Meurer viu a água invadir o seu apartamento, que fica no térreo
Anderson Meurer viu a água invadir o seu apartamento, que fica no térreo Foto : Mauro Schaefer

As águas baixaram, mas as marcas ficaram. No Rio Grande do Sul, as enchentes de maio de 2024, que completam um ano agora, deixaram um rastro de destruição que foi além das ruas e das casas. No coração dos torcedores, nos estádios e nos centros de treinamento, nasceram cicatrizes profundas — como aquelas que, embora curadas, jamais deixam de contar sua história. São marcas indeléveis de algo que parece superado, mas ficará para sempre no imaginário.

Para Grêmio e Inter, os maiores clubes do estado, o impacto foi avassalador. O CT Luiz Carvalho e a Arena do Grêmio foram tomados pela água. No Inter, o Beira-Rio também precisou ser recuperado e o CT Parque Gigante foi reerguido quase do zero. Equipamentos inutilizados, campos destruídos, calendário interrompido. Outros clubes esportivos como o Grêmio Náutico União e a Sogipa também foram atingidos. Mas a ferida, ainda que aberta, começou a ser tratada com o esforço conjunto de atletas, dirigentes, funcionários e torcedores, que se uniram para resgatar não apenas a estrutura, mas também o espírito esportivo que move gerações.

Esta série de reportagens percorre os estragos que a enchente deixou e acompanha os passos de recuperação, revelando os desafios e os pequenos milagres que se acumulam dia após dia. E, sobretudo, mostra como o futuro começa a ser redesenhado sobre o terreno das cicatrizes — não como sinal de fraqueza, mas como símbolo da força de quem resiste, aprende e segue em frente.

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Muitas vezes, em desastres naturais da magnitude das cheias de 2024, as atenções do grande público se voltam para as instituições atingidas. Mas também é preciso olhar para dentro, para as pessoas que trabalham nesses lugares e também sofrem consequências nas suas vidas particulares. No Grêmio não é diferente. Diversos funcionários foram atingidos, seja diretamente ligados ao futebol, seguranças ou até mesmo da manutenção do CT Presidente Luiz Carvalho.

Residente do bairro Fátima, em Canoas, Anderson Meurer, de 49 anos, massagista da equipe profissional do Grêmio, foi um dos atingidos pela enchente no Rio Grande do Sul. Ele, inclusive, seguiu sentindo os efeitos de maio do ano passado até pouco tempo atrás. Somente há cerca de 40 dias, Anderson voltou a morar no seu apartamento atingido, localizado em um dos blocos no térreo. Enquanto isso, alugou um outro apartamento para ficar no mesmo condomínio: “Não sabia se iria voltar, se iria vender. A gente ficou com receio de voltar e acontecer de novo”.

Prejuízos chegaram a R$ 50 mil

Assim como o clube, Anderson teve a ajuda de terceiros para conseguir se reerguer em meio ao prejuízo que julga ter chegado aos R$ 50 mil: “Graças a Deus, a gente tem muitos amigos. Eu sou de Torres, então as pessoas por lá fizeram campanha. Foi muito boa (rede de solidariedade), eu não tenho o que reclamar”. O massagista também revelou que jogadores e ex-atletas do Grêmio o ajudaram naquele momento: “Eu tinha conseguido uma camisa autografada pelo Suárez, fizemos uma rifa e arrecadamos uma grana muito legal. Os jogadores que passaram pelo clube, os próprios jogadores do clube me ajudaram bastante. Eu falei para a minha mulher que, infelizmente perdemos tudo, mas a gente vive, graças a Deus, em um meio que vai nos ajudar a reerguer”.

Ao lado da esposa e de sua cachorrinha, Anderson Meurer viveu momentos de tensão na virada do dia 3 para 4 de maio, quando a água tomou conta do condomínio e rapidamente invadiu o seu apartamento no térreo. Em um primeiro momento, a família ficou na residência de um amigo no quarto andar. Depois, quando precisou deixar o condomínio, eles ficaram abrigados na casa de Daniel, um outro amigo, por 30 dias: “Amigo que virou irmão, porque abriu a porta da casa por 30 dias, na intimidade dele e tudo. Isso não tem preço, não tem o que pague. A gente vê a vida com outra perspectiva depois de tudo isso que passamos”.

Anderson mostra a altura que chegou a água em seu condomínio | Foto: Mauro Schaefer

Somente 16 dias após a enchente é que Anderson conseguiu vir ao seu apartamento. Embora a água no condomínio estivesse mais baixa, a locomoção foi um desafio para que pudesse chegar ao destino pretendido: “Com 16 dias eu consegui vir (para pegar algumas roupas). Viemos de camioneta até umas seis quadras daqui, botamos um macacão e viemos dentro d’água. Dentro do condomínio, a água baixou um pouco, mas fora seguia alta. Foi o primeiro dia que adentrei o meu apartamento”. Três dias depois, com a ajuda de amigos, a família pôde começar a limpar o local.

Em meio a toda essa situação, Anderson Meurer teve a compreensão do Grêmio, que também passava por situação delicada: “O Grêmio me liberou enquanto eu precisei. Eu fiquei afastado. Enquanto eu precisei, o Grêmio me liberou. Trinta dias eu não trabalhei praticamente. O Grêmio foi muito parceiro”.

Parceria com Marcelo Moreno para ajudar outras pessoas

Em parceria de Marcelo Moreno, ex-centroavante tricolor, Anderson Meurer também ajudou outras pessoas que estavam em realidades ainda mais precárias: “Desde o primeiro momento, eu tive muito apoio. Mas depois, durante a realidade, tivemos algumas campanhas para a ajudar. O Marcelo Moreno foi um cara que me ajudou a distribuir 30 geladeiras pelo bairro. A gente vê algumas realidades de chorar, de cortar o coração. Como a gente passou, a gente quis se colocar no lugar daquelas pessoas mais necessitadas, com mais necessidades de se reerguer”.

Passado um ano, Anderson olha para trás e ainda convive com o trauma deixado pelas enchentes que assolaram o Rio Grande do Sul. A cada chuva que cai, uma lembrança que logo remete a maio de 2024. Mas o orgulho de ter sido resiliente e, hoje, poder voltar a morar no seu apartamento: “É um sentimento de resiliência. Um sentimento de incerteza, porque a gente ficou quase um ano para voltar, arrumar tudo. Talvez não ficou da maneira que a gente gostaria, mas da maneira que a gente pôde agora. Está bem bom de morar nele de novo. Mas a incerteza fica. Qualquer chuva a gente fica naquela hipótese, né. Vai acontecer, não vai acontecer. Acredito que não vá acontecer, que Deus quiser”.

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