As águas baixaram, mas as marcas ficaram. No Rio Grande do Sul, as enchentes de maio de 2024, que completam um ano agora, deixaram um rastro de destruição que foi além das ruas e das casas. No coração dos torcedores, nos estádios e nos centros de treinamento, nasceram cicatrizes profundas — como aquelas que, embora curadas, jamais deixam de contar sua história. São marcas indeléveis de algo que parece superado, mas ficará para sempre no imaginário.
Para Grêmio e Inter, os maiores clubes do estado, o impacto foi avassalador. O CT Luiz Carvalho e a Arena do Grêmio foram tomados pela água. No Inter, o Beira-Rio também precisou ser recuperado e o CT Parque Gigante foi reerguido quase do zero. Equipamentos inutilizados, campos destruídos, calendário interrompido. Outros clubes esportivos como o Grêmio Náutico União e a Sogipa também foram atingidos. Mas a ferida, ainda que aberta, começou a ser tratada com o esforço conjunto de atletas, dirigentes, funcionários e torcedores, que se uniram para resgatar não apenas a estrutura, mas também o espírito esportivo que move gerações.
Esta série de reportagens percorre os estragos que a enchente deixou e acompanha os passos de recuperação, revelando os desafios e os pequenos milagres que se acumulam dia após dia. E, sobretudo, mostra como o futuro começa a ser redesenhado sobre o terreno das cicatrizes — não como sinal de fraqueza, mas como símbolo da força de quem resiste, aprende e segue em frente.
Leia também:
- Massagista do Grêmio fez rifa de camisa autografada por Suárez para arcar com prejuízos durante a enchente
- Rondas em botes e equipamentos boiando no gramado: como as cheias de 2024 atingiram o Inter
- Após cheias no RS em 2024, Inter estuda mudanças no projeto do CT em Guaíba
- Clubes esportivos de Porto Alegre ainda lidam com as sequelas da enchente de 2024
O Grêmio foi atingido em diferentes áreas, desde o CT Presidente Luiz Carvalho, passando pelo CT Presidente Hélio Dourado, em Eldorado do Sul, até a escolinha do Cristal. Sem contar a Arena, administrada pelo Grupo Metha, que ficou debaixo d’água por 23 dias. “Foram afetados sistemas muito fundamentais para a operação. E aí eu estou falando de muita coisa, toda parte de equipamentos, a parte de subestação, o próprio gramado, toda aquela área da zona mista, toda parte de auditório, uma série de coisas que foram afetadas, elevadores, muitas coisas foram afetadas”, diz Mauro Araújo, presidente da Arena Porto-Alegrense.
O mandatário destaca a necessidade de maior investimento por parte da prefeitura de Porto Alegre para que eventuais novas enchentes possam ter consequências minimizadas. Caso contrário, mesmo com algumas readequações, o estádio também será novamente atingido: “Eu acho que, olhando toda a cidade como um todo, o importante é tentar fazer todos os investimentos necessários para que possamos evitar um dano como esse. Não só para a Arena, mas para todo o bairro, toda a cidade que foi muito afetada. Muitas regiões foram afetadas. Eu acho que todo mundo está preocupado muito com isso”.
Estádio ainda não retomou todas as atividades
Após as cheias de maio de 2024, o Grêmio só voltou a jogar na Arena quatro meses depois. O custo para reformar as partes atingidas foi de responsabilidade da seguradora Zurich, parceira da Arena Porto-Alegrense, e chegou a R$ 70 milhões. Porém, mesmo após um ano do desastre, nem todos os setores estão liberados novamente, como o auditório que recebe as entrevistas coletivas do Tricolor e um dos telões do estádio: “Dentro do nosso planejamento, a gente entende que até julho agora, a gente vai estar com plenamente todos esses equipamentos, digamos assim”, afirma Araújo.
Em balanço divulgado pelo clube, foram R$ 10,9 milhões de prejuízo com as enchentes, incluindo os Centros de Treinamento, perda de receita e gastos com logística — o Grêmio, inicialmente, ficou hospedado em São Paulo e depois foi para Curitiba. A CBF arcou com R$ 7 milhões pelos gastos extras com viagens, que foram pagos em mais de uma parcela. Outro prejuízo que o Tricolor teve foi referente aà loja Grêmio Mania, de R$ 1,5 milhão, que foi amenizado pela doação da Umbro, fornecedora de material esportivo do clube, de R$ 1 milhão.