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"Esse espaço representa nossa dignidade": depois da enchente, famílias reconstroem suas vidas em ocupação

Ocupação Arvoredo completa onze meses de existência no Centro de Porto Alegre

"Tenho certeza de que aqui vai ser meu cantinho para o resto da vida”, diz a moradora Ana
"Tenho certeza de que aqui vai ser meu cantinho para o resto da vida”, diz a moradora Ana Foto : Ricardo Giusti

Cozinha limpa, paredes pintadas, sala bem organizada, com sofá, mesa, pufe e TV. Dois ovos de páscoa ainda intactos sobre a estante. O cenário com o qual a aposentada Ana Karina Michel se depara quando chega ao seu apartamento, na Ocupação Arvoredo, destoa completamente da cena que viu ao deixar o bairro Sarandi, em maio de 2024, resgatada em um barco, deixando para trás seus móveis, pertences e lembranças.

Ana morava com o marido na vila Nova Brasília, em um dos bairros mais afetados pela enchente em Porto Alegre. Os sogros e o filho moravam em outras duas casas na mesma vila.

“Ali, deu sete metros de água. Eu morava no segundo piso, de aluguel, e foi tudo. A casa ficou coberta de água e lama. Fui resgatada de barco só com a roupa do corpo, junto com minha sogra de 72 anos e o sogro de 74”, recorda. Em um porta-retrato, uma foto do neto Murilo, de dois anos, simboliza as memórias levadas pela lama e as que começam a ser construídas fora da área de risco.

A partir do resgate, teve início uma jornada que durou cerca de três meses e passou por três abrigos (o primeiro deles, localizado na zona norte, também alagou), um sítio emprestado em Alvorada e a casa de um familiar, até chegar ao edifício da rua Fernando Machado.

A organização impecável do apartamento ocupado por Ana destoa das opiniões de parte dos moradores de prédios vizinhos, em uma região de classe média.

“Muitos não nos querem aqui, porque acham que a gente é baderneiro, que é isso e aquilo. Estão muito enganados. As pessoas que nos julgam não sabem o que é perder tudo na vida. Eu perdi tudo. Meu filho, meus dois netos e minha nora perderam tudo. Minha sogra e meu sogro perderam tudo.”

Ana conta que se sente muito bem no seu novo “cantinho” e é ali que planeja reconstruir o que a lama levou. “Já reformei, arrumei e estou terminando de pintar uma parede. Daqui a gente não vai sair. Eu tenho certeza de que aqui vai ser meu cantinho para o resto da vida.”

Aprendendo na prática a se organizar

Surgida no fim de maio do ano passado, a iniciativa reuniu famílias afetadas pela enchente na zona norte da Capital, na região das ilhas, em Canoas e Eldorado do Sul. Começou com cerca de 35 famílias e hoje são 68.

Ao longo de quase um ano de existência, a ocupação definiu uma coordenação, formada por nove pessoas e constituiu formalmente uma associação, com apoio de um escritório de advocacia. Carlos Eduardo, o Dunga, é o porta-voz. Foi ele quem localizou o edifício.

“Minha casa o valão levou”, recorda. Com toda a família vivendo no bairro Sarandi, não havia residência de parente que pudesse abrigá-los. “Estou com toda minha família aqui, meus filhos, minha mãe, minhas irmãs, sobrinhos. Fiz essa frente aqui por causa deles”, conta Dunga.

Em função do trabalho com a construção civil, Dunga conhecia moradores do Centro, que indicaram que o local estava desocupado há pelo menos uma década. Disseram ainda que era alvo de furtos e utilizado para consumo de drogas. Junto de um amigo, avaliou a situação do local e consultou um advogado. Chegaram à conclusão: vai ser complicado, mas vale a pena tentar.

Um dos diferenciais da Ocupação Arvoredo é que a ação não foi organizada por um movimento social ou entidade. Dunga nunca teve contato com movimentos sociais ou organizações comunitárias.

Sem movimentos sociais, Dunga e demais moradores tiveram que aprender a se organizar na prática | Foto: Ricardo Giusti

“A organização toda partiu de nós, das nossas ideias. A gente senta aqui e conversa sobre o que está acontecendo, o que está ou não está legal, e assim a gente consegue manter tudo organizado. O começo foi bem difícil, mas tudo na vida a gente aprende. Ninguém nasce sabendo.”

Dunga relata que os moradores enfrentaram constrangimentos e tentativas de desocupação. Hoje, a permanência das famílias no local é garantida por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) em ação movida pela Defensoria Pública, que acompanha o caso.

O edifício de três blocos tem 70 apartamentos. Há desde pessoas que vivem sozinhas até famílias com quatro filhos. É comum mais de um núcleo da mesma família ter perdido a moradia e migrado para a ocupação. Os principais cuidados na seleção dos novos ocupantes foram garantir a segurança dos moradores e evitar a entrada de pessoas envolvidas com facções.

Com apoio do governo federal, a associação planeja adquirir reformar o espaço, por meio de programas como o Compra Assistida e o Minha Casa Minha Vida.

“Esse espaço representa nossa vida, nossa dignidade, nossa moral, representa o que nós somos. É o nosso lar. Podemos ver nossos filhos correndo em um lugar seguro, tendo a Brigada Militar ali na esquina, tendo dois ou três bons colégios por perto, a gente pisando em asfalto. A gente merece, somos trabalhadores, pagadores de impostos. A gente estava lá, morando na beira de valão, enquanto tinha um lugar desse jogado durante 15 anos”, conclui Dunga.

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Regras e cuidados com a segurança

Por ter funcionado como hotel, o edifício já está dividido em apartamentos e dispõe de áreas comuns, como pátios, saguão e outras salas, utilizadas para as reuniões. Na parede, um cartaz apresenta as regras de convivência da ocupação. São orientados cuidados com a limpeza, segurança e organização, horário de silêncio e o convívio harmônico nos espaços comuns.

Na entrada, foram instaladas câmeras de vigilância e um porteiro controla a entrada e saída do edifício. A segurança é reforçada pelos cães de Dunga, da raça pitbull, o Monstro e a Zoe. Os animais fazem o papel de desencorajar tentativas de invasão pelos pátios.

A costureira Selma quer ensinar uma profissão

Uma das salas coletivas do antigo hotel acumula muitas roupas, araras e máquinas de costura. Ali está sendo montada uma oficina de costura. Selma Vicente, 75 anos de idade e 60 de experiência como costureira é quem vai ensinar o ofício a outros moradores. O espaço conta com três máquinas de costura doadas e aguarda a chegada de outras duas.

Em setembro de 2023, Selma já havia sentido a tristeza de uma enchente. Moradora de Eldorado do Sul, ela recorda que a cheia matou alguns animais em sua casa. Em maio de 2024, a cena foi ainda pior. “Essa grande tapou minha casa e arrebentou as casas das minhas filhas, foi tudo por água abaixo.”

Selma mostra o espaço onde está sendo montada uma oficina de costura | Foto: Ricardo Giusti

Após ser resgatada em Eldorado, Selma foi para a casa de uma filha, no bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre, que também precisou ser evacuada. Após alguns dias em um abrigo improvisado, com muitas pessoas em um apartamento emprestado, ficou sabendo da ocupação pelo rádio e foi até o local. Ela e suas duas filhas foram aceitas para viver no local.

Seu objetivo agora é ver a sala cheia. “Vou ensinar quem quiser aprender a profissão. No começo, vamos fazer bolsas, almofadas e chinelos. Quem sabe um dia vocês não vêm aqui e vai ter uma fileira de máquinas e todo mundo trabalhando.”

Anselmo salvou seu carro após um mês embaixo d’água

Estacionada na garagem do edifício, uma Belina 1985, de um branco com marcas de ferrugem demonstra a capacidade de reconstrução de quem sofreu com cheia histórica. O veículo pertence a Anselmo Gomes, morador da ocupação, que o utiliza para trabalhar com pequenos fretes.

“Ela ficou submersa durante 31 dias, com cerca de um metro de água acima do teto. Depois, começou a baixar. Com 48 dias, a água batia no meio da roda. Paguei um guincho e trouxe ela para cá”, recorda.

Ele conta que comprou a Belina um pouco antes da enchente, pois sempre quis ter um carro antigo. “Como eu entendo um pouco de mecânica, abri o motor, tirei tudo fora. Lavei e passei diesel. Comprei vela, cabo e bobinha nova. O resto eu mesmo restaurei tudo. Eu trabalho com ela e, aos poucos, vou reformando ela, conforme eu tenho condições.”

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Porto Alegre Inundada
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