Em uma tarde de verão no interior da França, ela se recusou a tirar o casaco. Sentia calor, mas a vergonha em mostrar os braços diante de pessoas que mal conhecia era maior. Semanas depois, olhou-se no espelho, envolveu o próprio corpo em um abraço e pediu desculpas a ele.
Desculpas pelos anos que passou ignorando-o, criticando-o, tratando-o como inimigo, escondendo-o. E, algum tempo depois, ela estava correndo por uma estrada aberta, apenas de lingerie, sentindo-se parte do mundo inteiro.
Essa mulher se chama Agneta, e ela existe em um filme. Mas poderia ser real, porque essa sequência, do casaco ao abraço e ao voo, mostra o que pode acontecer quando uma mulher madura decide, finalmente, viver um sonho que estava guardado.
A protagonista do filme sueco “Meu nome é Agneta” tem 49 anos e uma relação de amor com a França que nunca foi além dos excessos em queijos e vinhos, e de programas vividos on-line.
A França existe na vida dela como um desejo que nunca se transformou em passagem aérea – e o corpo pagava a conta. Até que, em um momento de ruptura, ela faz algo que a maioria consideraria loucura: vai trabalhar em um vilarejo francês sem nunca ter posto os pés no País, sem falar o idioma, sem garantia nenhuma de que vai dar certo.
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E é aqui que o filme deixa de ser sobre a França e passa a ser sobre sonhos.
Existe uma forma de se relacionar com os próprios sonhos que muitas mulheres conhecem bem: alimentá-los de forma segura, à distância, sem nunca de fato ir ao encontro deles. O sonho vira um hobby, uma estética, uma coleção. Come-se o croissant, compra-se o livro, assiste-se ao documentário. Mantém-se o sonho vivo o suficiente para que não se torne ausência – mas longe o suficiente para não exigir iniciativas concretas.
Na maturidade, esse arranjo começa a cobrar um preço. Depois de décadas priorizando o que era seguro e esperado, o sonho não aceita mais ser apenas decorativo. No entanto, para dar espaço a ele, é preciso que retiremos as camadas sob as quais o escondemos, como as expectativas sociais que se acumulam sobre uma mulher madura que deveria ser responsável, previsível, disponível, razoável.
Há ainda outra camada, mais difícil de perceber: a crença de que certos sonhos não são para nós – não desta forma, não nesta altura da vida, não com este corpo, não com essa história. É a voz que diz "isso é loucura" antes mesmo que alguém de fora diga qualquer coisa. E é ela, mais do que qualquer pressão externa, que mantém o casaco no lugar.
O filme mostra que o salto de Agneta não foi heroico nem suave, mas constrangedor e desorientador. Ela erra o idioma, não entende os costumes, se sente deslocada. E mesmo assim, vai se soltando – nas escolhas e no corpo.
Quando pensamos na vida que desejamos, raramente incluímos o corpo nessa equação. Ele aparece como problema a ser resolvido antes (emagrecido, corrigido, adequado) ou simplesmente não aparece. Esquecemos que é no corpo que sentimos a vida acontecer.
Agneta carregava isso literalmente. Para experimentar-se, ela precisou se lançar não apenas ao inimaginável no cotidiano, mas também ao inimaginável dentro de si. E o corpo, que ela havia deixado de fora de todos os seus planos, acabou sendo o lugar onde a liberdade chegou primeiro.
Adriana Haas é jornalista e escritora, pós-graduada em Neurociência, em Psicologia Positiva e em Cuidado Integral de Mulheres Maduras. Pesquisa sobre a maturidade feminina há mais de dez anos e tem dois livros sobre o tema.
