Rural

Feovelha celebra 40 anos e projeta novo ciclo de prosperidade para ovinocultura

Segmento tem perspectivas positivas e foco em mercado de carne promissor

Evento em Pinheiro Machado tem histórico de bons negócios, liquidez e genética qualificada
Evento em Pinheiro Machado tem histórico de bons negócios, liquidez e genética qualificada Foto : Gislene Farion/Feovelha / CP

Um dos marcos da ovinocultura gaúcha, a Feira e Festa Estadual da Ovelha (Feovelha) completa 40 anos ininterruptos de atividades com olhar otimista para um promissor mercado da proteína de carne ovina. Nesta edição do evento em Pinheiro Machado, na região da Campanha, realizado nos últimos quatro dias, no Parque Charrua, o espírito de organizadores e criadores foi de inaugurar um novo ciclo de prosperidade para o segmento, após enfrentar dificuldades com o fim do ciclo da lã, nos anos 80 e 90. Além de oportunidades de comercialização de animais com genética superior e garantia de sanidade e reprodução, a programação da Feovelha teve julgamentos de raças, feira de comércio e artesanato, homenagens, reuniões políticas e setoriais, oficinas do Senar, sobre tecelagem em lã crua, e do Senai, com foco gastronômico e receitas com base na carne de cordeiro.

Para a organizadora da Feovelha, Maria Luiza Farias, voluntária do Sindicato Rural de Pinheiro Machado, a expectativa é sempre boa. “Tivemos 2 mil animais inscritos para o Rematão, que é nosso carro-chefe, assim como um número bem satisfatório de animais a prêmio. Isso tudo nos indicou bons negócios”, afirma. Ela ressalta que a praça comercial da Feovelha tem um histórico de transações comerciais e liquidez para compradores e vendedores, com genética qualificada, garantias de produtividade, sanidade e reprodução, chanceladas pela Associação Brasileira de Criadores de Ovinos (Arco).

Muitas mãos

Em 40 edições, a Feovelha não parou nem durante a pandemia de Covid-19. “Fizemos e continuaremos a fazer com toda a responsabilidade. É uma feira que foi construída a muitas mãos, com diretorias do Sindicato Rural e criadores envolvidos”, diz. As mãos e mentes que trabalharam pelo setor foram homenageadas na feira com a entrega do Mérito Feovelha 40 anos, que reconheceu cinco pessoas da região. Também houve espaço multirraças, em parceria com Arco, e um memorial da Feovelha, com itens que relembram a trajetória da feira. “Fizemos uma visita no tempo, para saber de onde viemos e onde queremos chegar”, destaca Maria Luiza.

A organizadora ressalta a importância da ovinocultura como atividade secular, vital para as propriedades da pecuária familiar e garantia alimentar. Maria Luiza reconhece as dificuldades do mercado da lã e enxerga oportunidades. “Temos um mercado ávido por carne de excelência e queremos focar nessa oportunidade”, destaca.

Homenagens

A perspectiva é compartilhada pelo presidente da Arco, Edemundo Gressler, que contextualiza a Feovelha dentro do circuito de feiras de verão da ovinocultura e tem sua grandeza atestada pela longevidade. “Desde o início, houve necessidade de organizar uma feira especializada e assim a Feovelha foi criada, com o objetivo de fomentar e mostrar toda a pujança que a ovinocultura tinha nessa importante região do Estado”, diz.

Gressler destaca que o segmento ovelheiro rende homenagens a associações e ao Sindicato Rural de Pinheiro Machado, pela oportunidade de comércio e na mostra de genética das raças. “Temos que parabenizar os sindicatos por essas oportunidades dadas ao produtor. Essa 40ª Feovelha se consolida como feira importante dentro do circuito da ovinocultura, sempre voltada ao fomento e ao desenvolvimento”, atesta.

Nos tempos áureos, a ovinocultura teve mais de 10 milhões de cabeças no Rio Grande do Sul, mas foi perdendo força ao longo das décadas e atualmente conta com rebanhos ao redor de 3 milhões de animais. O Estado abriga o terceiro maior plantel do Brasil, atrás da Bahia, com 4,5 milhões de animais, e de Pernambuco, com 3,5 milhões, segundo dados de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

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Gressler vê com entusiasmo a oportunidade desencadeada pelo interesse de indústria e consumidores em relação à carne ovina, que dá um alento ao setor, desfavorecido pela dependência do mercado internacional para a comercialização da commodity lã. “Temos alguns negócios para lãs mais finas, de maior valor têxtil, mas hoje o viés carne está se sobrepondo. Há sentimento de otimismo na questão da carne ovina. Portanto, cresce a necessidade de maior organização, de estabelecer a organização da cadeia”, salienta.

O presidente da Arco diz que o ovinocultor deve se utilizar da eficiência reprodutiva da espécie e aumentar os cuidados no manejo. “O mercado da carne no país é extremamente promissor e tenho certeza de que em breve as coisas vão começar a melhorar mais. Então, o clima é de otimismo, mas pautado na realidade. Tem muita estrada e desafios pela frente”, finaliza.

Missão é conquistar novos consumidores

Estudo da Embrapa indica que 12% da população brasileira nunca comeu carne ovina

Elen Nalerio é médica veterinária e pesquisadora em ciência e tecnologia de carnes da Embrapa Pecuária Sul | Foto: Arquivo Pessoal / CP

A confiança dos ovinocultores para ampliar seu espaço no mercado de proteína se ampara em demanda elevada por carne ovina e pela conquista de novos públicos. “Os dados de estudos de consumidor da Embrapa são de que 12% da população brasileira nunca consumiu carne ovina. Um dos principais motivos para isso é a falta de oferta e disponibilidade em pontos de venda”, diz a médica veterinária e pesquisadora em ciência e tecnologia de carnes da Embrapa Pecuária Sul, de Bagé, Elen Nalerio.

Conforme a pesquisadora, o consumo nacional tem sido mantido com carnes procedentes do Uruguai. No Brasil, a informalidade na produção é um desafio. Segundo Elen, dados antigos do governo do Estado apontavam que somente 15% dos animais eram abatidos de forma formal. O incentivo à formalização da cadeia produtiva deve incluir abates em frigoríficos, sistema de produção fiscalizado e regulamentado para melhorar a experiência de consumo da carne ovina.

Até os anos 80 e 90, quando se encerrou o ciclo da lã, os animais abatidos eram aqueles que não produziam mais lã ou já não emprenhavam. ”As pessoas não consumiam e não gostavam porque era um sabor muito intenso, de cheiro muito forte e muita gordura na carne. Isso fez com que o consumidor, com exceção do público rural, não consumisse muito esse produto”, analisa Elen.

Resistência

“Ainda hoje existe uma fatia da população urbana que tem um pouco de resistência em provar a carne ovina porque teve uma experiência sensorial não agradável no passado. E grande parte desse público é de mulheres”, esclarece. Diversamente do passado, a carne comercializada atualmente provém de animais jovens, os cordeiros, que agrada o paladar de quem consome. “É uma carne totalmente diferenciada daquela que se oferecia”, esclarece a pesquisadora.

Estudos da Embrapa evidenciaram que os consumidores não sabem reconhecer e diferenciar ovelha de cordeiro. A exigência do mercado é por carne de cordeiro, considerando que animais fora desse padrão comercial têm atributos de qualidade diferenciados. Conforme Elen, o teor de proteína se mantém estável nas carnes ovinas em geral, entre 18% e 19%, com maior variação dos teores de gordura, que depende de uma série de fatores, entre eles a nutrição animal. “Se foi alimentado em base pastoril, vai ter determinado teor de gordura, e essa gordura vai ser formada por diferentes ácidos graxos”, explica.

O método científico de análise da carne ovina considera o corte lombo. De acordo com Elen, em cordeiros (animais dente-de-leite, de até seis meses de idade) o percentual de gordura fica em 3,28%. Em animais de dois dentes (borregos, de seis a 12 meses), a taxa é 5% de gordura. Já em animais de quatro dentes, seria 8% de gordura no lombo, sem gordura subcutânea.

Qualidade nutricional

Os percentuais do estudo são a partir de animais alimentados a pasto. “A qualidade nutricional é muito variável em função do sistema produtivo e da idade do animal. Em geral, a carne ovina tem perfil lipídico mais poliinsaturado, o que é benéfico para a saúde. Quanto mais ácidos graxos poliinsaturados, melhor para a nossa saúde”, afirma.

Um contraponto a essa característica é a propensão da carne à rancificação. “É quando a gordura se oxida, tem cheiro que chamamos de ranço. Isso pode acontecer quando a carne é estocada por grande tempo”, explica Elen. Segundo a pesquisadora, a configuração de gorduras depende da nutrição animal, a pasto, ração ou se foi confinado. “Se o animal consumir concentrados, ração, e for confinado, esse aporte energético vai aumentar, e o percentual de gordura da carne também vai aumentar, assim como a conformação de ácidos graxos e o perfil de ômega-3 e 6”, destaca.

Pesquisas mostram que o consumo de ômega-3, 6 e 9 têm efeito positivo na relação com a redução do risco de desenvolver de câncer de mama, próstata e colon e auxilia na redução do LDL e triglicérides. “Quanto mais pasto for utilizado na alimentação desse animal, maior a quantidade de ômega-3 na carne, o mais benéfico. Se for alimentado em confinamento, menor essa quantidade, o que seria menos benéfico para a saúde humana”, detalha Elen.