Há programas, e lições, que não cabem em cartilhas, porque são gigantes, e continuam ensinando muito depois que o último slide é desligado, ou a última página do caderno se fecha. O PROERD é assim. Ele não impede todas as dores, mas planta referências. E quando um jovem escolhe pedir ajuda em vez de se calar, algo deu certo. Em meio a um mundo duro, esse gesto simples — confiar — é uma vitória silenciosa. E profundamente humana.
Notícias repetidas de feminicídios, os casos parecem se multiplicar. Há algum novo vírus no ar que transforma homens em psicopatas covardes ou sempre foram assim e nós não havíamos percebido? E após o caso de Florianópolis, o número de agressões a animais aumentou, ou apenas se passou a dar mais importância e espaço para este tipo de crime? É raro o dia em que não nos deparamos com uma nova e assustadora, quase inacreditável. Afinal, o que está acontecendo? Talvez a resposta esteja em reconhecer que a violência tem raízes históricas, sociais e culturais profundas, mas também em acreditar que bons exemplos podem contagiar com tanta força quanto o mal. Precisamos insistir nisso, torcer por isso e, especialmente, agir.
É preciso mudar a forma como meninos são educados, como homens lidam com frustração, posse e poder, e como a sociedade reage aos primeiros sinais de violência. Mudar a forma como até a mulher mais simples do nosso povo se enxerga no contexto. Prevenir feminicídio é fazer o que realmente importa: impedir que o crime aconteça. Não é apenas punir depois. É transformar antes.
Diferente de grupos terroristas internacionais, tradicionalmente ligados a narrativas religiosas ou separatistas, as células aqui identificadas parecem fruto de uma mistura de ideias soltas, frustrações sociais e a sensação de poder imediato que a internet oferece aos que sabem usar códigos e símbolos para se reconhecerem.
A relação de confiança entre mãe e filha foi o verdadeiro ponto de ruptura deste crime em especial. Foi ali que o plano fracassou. A menina contou, a mãe acreditou, investigou, não minimizou, não relativizou, não se convenceu de que “talvez seja só conversa”. Ao contrário: foi a fundo, procurou a polícia e participou de uma ação que resultou na prisão do homem antes que ele pudesse fazer mais uma vítima.
A violência, que caminhava disfarçada de cotidiano pela calçada, foi interrompida. Não por força bruta, mas por preparo, sensibilidade e conhecimento de dois policiais militares.
Todos os anos, dezenas de pessoas morrem no Brasil atingidas por raios. Outras tantas ficam com sequelas permanentes. Ao menor sinal de temporal, procure abrigo seguro, afaste-se de áreas abertas, da água, de árvores isoladas. Não desafie o céu. Cuidar-se não é medo, é respeito à vida.
Agora, além da prisão, vem o desafio mais urgente: proteger essa mulher. A experiência mostra que a cadeia nem sempre é o fim da história. Em algum momento ele estará de volta às ruas — como já esteve, apesar de tantos crimes. O Estado, a rede de proteção e a sociedade precisam agir para que essa jovem não volte a viver sob ameaça. Correntes foram quebradas naquele dia. O que não pode continuar preso é o nosso dever de indignação, vigilância e responsabilidade coletiva.
Ninguém deveria precisar de coragem para simplesmente ser quem é. No país, o Rio Grande do Sul lidera o número de crimes contra a população LGBTQIAPN+ pelo segundo ano consecutivo, com mais de 1,4 mil casos registrados em 2025, entre agressões físicas, psicológicas e violações dos direitos humanos.
Mas a pergunta que precisa ser feita não é apenas o que fizeram com Orelha, e sim quem são os adolescentes capazes de achar graça nisso. Que tipo de formação — ou deformação — produz jovens que veem na dor alheia uma forma de entretenimento? Que educação falhou de maneira tão profunda a ponto de transformar crueldade em riso? Quem se diverte assim, amanhã vai se divertir espancando alguém fora do “padrão”. Ou participando de estupros coletivos tratados como "parte da farra”.
Seguem os feminicídios. Hoje a coluna é um pouco diferente. É um poema. De voz embargada em tristeza, mas acima de tudo um alerta, um apelo.
Para reverter este quadro, precisamos olhar além das leis e observar as raízes socioculturais da violência. É apenas quando a sociedade inteira — homens e mulheres, jovens e idosos — reconhece e confronta as ideias que alimentam a violência de gênero que podemos, de fato, sonhar com um futuro em que histórias, como as que rechearam a crônica policial destes últimos dias, não façam mais parte constante de nossas estatísticas.
Além de aplaudir as apreensões, é preciso refletir sobre o que elas revelam. A fiscalização não pode ser a única barreira entre o descaso e o prato do consumidor. Segurança alimentar exige rigor do Estado, ética de quem vende e atenção de quem compra. Alimento não é mercadoria qualquer. Quando a ganância contamina o que se come, o prejuízo não aparece apenas na estatística — aparece no corpo, na saúde e, às vezes, na vida de quem confiou.
A polícia faz a sua parte, mesmo que o estado engatinhe no sentido de deixar policiais suficientes, em todo o RS, exclusivamente para este tipo de crime. Mas dos mais de 13 mil pedidos de proteção de mulheres vítimas de violência, no RS apenas 803 homens estão com tornozeleira eletrônica. E as redes de proteção são igualmente falhas na maioria das cidades gaúchas.
Uma mulher, numa situação desesperadora, ligou para a central de atendimento da Guarda Municipal da cidade. Pediu uma pizza. O atendente percebeu o tom estranho na voz da mulher. Se todos os seres humanos, servidores da segurança, da saúde, da educação e, principalmente, os gestores públicos tivessem essa nobreza de alma e caráter, teríamos outra realidade. Outros índices de violência, muito menores.
Quatro mulheres assassinadas, apenas no RS, em menos de três semanas do novo ano. Foram 73 em 2024 e 80 em 2025. Mais de 41 mil mulheres assassinadas em dez anos no país. Mais de 70 mil mulheres estupradas em apenas um ano. Mais de 230 mil meninas sendo mãe antes dos 14 anos. E uma esmagadora maioria de jovens mulheres que abandonam os estudos. Só esses dados já falam muito sobre como a nossa sociedade trata suas mulheres.
Em quantas casas isso acontece agora mesmo? Quantas crianças estão aprendendo cedo demais que não podem contar com ninguém? Que crescem com medo, desconfiança e um vazio difícil de nomear? Que amor e cuidado são palavra sdistante cujos significados não se consegue entender?
As instituições policiais brasileiras, como as outras instituições públicas de saúde, educação, trabalho e etc., evoluem como instrumento de cidadania a partir da análise dos seus erros e acertos. E, como na maioria dos países do mundo, muito trabalho para que um novo erro não aconteça. Mas o fator humano sempre será imprevisível.
Agora não é tempo de julgamentos apressados, nem de linchamentos morais. É tempo de respeito aos familiares enlutados, à instituição policial que não age para matar cidadãos e à verdade que precisa ser construída com rigor. Investigar os detalhes da ação e da reação, a origem da informação e seus interesses e sua veracidade é essencial. O tempo não volta, infelizmente. Esta madrugada não terá segunda chance.
Quando a polícia armada é chamada para lidar com crises de saúde mental, a sensação que fica é a de uma escolha institucional cômoda. Não parece faltar verba, nem órgãos, nem discursos. Falta vontade pública de organizar fluxos, assumir responsabilidades e fazer com que cada pasta cumpra sua função. Transtornos mentais são cada vez mais frequentes, previsíveis e conhecidos. Insistir em tratá-los como caso de polícia é empurrar o problema para quem não foi preparado para isso.